O planejamento das cidades a partir da integração entre poder público, iniciativa privada e sociedade foi o tema central das discussões durante o workshop “Sustentabilidade, Inovação e Novos Métodos Construtivos – O Futuro da Minha Cidade”, realizado nesta segunda-feira (21), em Fortaleza. Promovido pelo Sinduscon Ceará em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), por meio da Comissão de Meio Ambiente e Sustentabilidade (CMA), o encontro reuniu gestores, empresários e especialistas para discutir caminhos capazes de tornar as cidades mais sustentáveis, eficientes e preparadas para transformações do futuro. O evento foi realizado na sede da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC).
A palestra magna “O Futuro da Minha Cidade” foi conduzida pelo prefeito de Maringá (PR), Silvio Barros, e seguida por uma mesa de discussão com a participação de José Carlos Gama, diretor do Sinduscon Ceará, e Paulo Muniz, vice-presidente da CBIC e ex-presidente do Codese-DF (Conselho de Desenvolvimento Econômico, Sustentável e Estratégico). O evento também contou com a presença da Paula Frota, vice-presidente de Sustentabilidade do Sinduscon Ceará.
O workshop também reuniu representantes de diferentes setores ligados ao desenvolvimento urbano. Entre as instituições de ensino, participaram IFCE, IPOS, UECE, UFC e Unichristus. O segmento financeiro esteve representado pelo Banco do Nordeste e pela Caixa Econômica Federal (CEF). Também estiveram presentes representantes da CBIC, Coopercon, FIEC, OAB, Senai e Sesi, além de órgãos públicos como Cagece, Secretaria do Desenvolvimento Econômico (SDE) e Secretaria Municipal do Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma), de Fortaleza; Prefeitura de Maracanaú; e Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), de Maranguape.
O evento conta com o patrocínio da Companhia de Cimento Apodi, da Konstroi, da Companhia de Gás do Ceará (CEGÁS), da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), e da Caixa Econômica Federal.
Durante a fala inicial, Silvio Barros ressaltou a importância da colaboração ativa dos mais diversos segmentos da sociedade civil para a elaboração de estratégias para o desenvolvimento dos municípios. Ao apresentar a experiência de Maringá, Barros defendeu que o planejamento urbano deve partir das decisões tomadas no presente e de uma visão clara sobre o modelo de cidade que se pretende construir nas próximas décadas, a partir da defesa dos interesses coletivos da sociedade.
“O futuro desejável exige ação. Ele não acontece sozinho. Precisamos investir energia, disposição, tempo e recursos para construí-lo. Quando pensamos 20 anos à frente, precisamos entender que as decisões tomadas hoje vão determinar a cidade que teremos no futuro”, afirmou.
Segundo Barros, a velocidade das transformações econômicas, tecnológicas e sociais exige que os municípios acompanhem mudanças que podem alterar profundamente a dinâmica urbana, a geração de emprego e a própria ocupação das cidades. Para ele, cidades que desejam permanecer atrativas precisam manter uma agenda permanente de planejamento, inovação e revisão de suas estratégias de desenvolvimento.
A discussão também abordou o papel da sociedade e do setor produtivo na formulação de propostas de longo prazo. José Carlos Gama também destacou a importância da mobilização coletiva para a transformação do ambiente urbano, ressaltando que o desenvolvimento das cidades não deve ser tratado apenas como responsabilidade dos governos.
“A cidade é nossa. Se queremos promover mudanças, precisamos compreender que a sociedade também precisa participar e assumir seu papel nesse processo”, destacou.
Já Paulo Muniz acrescentou que iniciativas construídas a partir da sociedade civil precisam preservar sua independência institucional em relação aos governos. A autonomia, segundo ele, permite que organizações envolvidas no planejamento mantenham capacidade de diálogo, acompanhamento e cobrança, mesmo diante das mudanças de gestão.
“Essa independência é fundamental para que possamos discutir com o governo e também cobrar o governo. É preciso preservar a liberdade das instituições para acompanhar o planejamento e permanecer vigilante em relação à sua execução”, afirmou.
Construção do futuro: planejamento urbano incorpora IA, baixo carbono e novos métodos construtivos
No segundo momento do workshop, o painel “Construção do Futuro – Inovação, Baixo Carbono e Novos Métodos Construtivos” ampliou o debate para soluções capazes de adequar o desenvolvimento urbano às novas demandas da população e do mercado. Participaram Cláudio Bernardes, vice-presidente de Urbanismo do Secovi-SP e colunista da Folha de S.Paulo; Nicolaos Theodorakis, sócio-fundador da Noah Wood Building; e Calil Neto, engenheiro industrial madeireiro e sócio da Rewood. A moderação foi conduzida por Nilson Sarti, vice-presidente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CBIC.
Passando por diversas áreas do desenvolvimento das cidades, Cláudio Bernardes destacou que o planejamento contemporâneo precisa considerar não apenas a infraestrutura de transporte, mas principalmente a forma como as atividades estão distribuídas no território. Para ele, reduzir a necessidade de grandes deslocamentos e ampliar a proximidade entre moradia, trabalho e serviços são elementos centrais para uma ocupação urbana mais eficiente.
“A mobilidade está diretamente relacionada à localização das atividades na cidade. O melhor modelo é aquele em que as pessoas precisam se deslocar pouco, com distâncias curtas. Isso exige pensar centralidades e ocupar o território de forma estratégica”, explicou.
Bernardes também defendeu a importância da inteligência artificial como uma ferramenta com potencial para ampliar a capacidade técnica do planejamento urbano, permitindo testar diferentes cenários antes da tomada de decisões.
“A inteligência artificial pode nos ajudar muito nesse processo, porque permite realizar milhares de simulações simultâneas a partir dos modelos que imaginamos e chegar a soluções mais próximas das necessidades reais das cidades”, afirmou.
As soluções construtivas de menor impacto ambiental também ganharam espaço no painel. Nicolaos Theodorakis apresentou a madeira engenheirada como uma alternativa para combinar industrialização da construção, eficiência produtiva e redução da pegada de carbono dos empreendimentos. Segundo Theodorakis, a busca por novos sistemas construtivos passa pela necessidade de reduzir os impactos ambientais do setor sem abrir mão de desempenho, qualidade arquitetônica e capacidade de customização.
“A proposta é conseguir industrializar o processo construtivo e, ao mesmo tempo, contribuir para a descarbonização do setor. A madeira engenheirada surgiu nesse caminho como uma solução que reúne eficiência, possibilidade de customização e atributos de sustentabilidade”, explicou.
O tema também foi abordado por Calil Neto, que detalhou aspectos técnicos relacionados ao desempenho e à segurança de edificações em madeira. Ele ressaltou que projetos dessa natureza seguem critérios estruturais e normas técnicas, assim como edificações executadas com materiais convencionais.
“Quando falamos de condições climáticas ou de cálculo estrutural, os princípios são os mesmos utilizados em estruturas de aço ou concreto. Hoje temos normas de estrutura e de segurança contra incêndio que permitem trabalhar com a madeira com o mesmo rigor técnico exigido dos demais sistemas”, afirmou.
A possibilidade de ampliar o uso da madeira engenheirada também havia sido apresentada por Silvio Barros durante a palestra magna. O prefeito relatou iniciativas em desenvolvimento no Paraná para estimular construções com menor impacto de carbono, incluindo o emprego do sistema em edificações públicas. Para Barros, a atuação do poder público pode ajudar a criar condições para que novas tecnologias avancem e ganhem escala no mercado.
Ao reunir experiências de gestão urbana, ferramentas digitais e novos sistemas construtivos, o workshop colocou em discussão diferentes dimensões de um mesmo desafio: planejar cidades capazes de acompanhar transformações econômicas, ambientais e tecnológicas, conciliando políticas públicas, demandas do mercado e qualidade de vida para a população.